Quem foi Manoel da Silva?

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A atuação marcante e decidida de Manoel da Silva em prol da extinção do trabalho escravo, em Areia, é muito significativa para a história da Paraíba.  A paixão que o sacudiu teve o condão das atitudes ríspidas, de sarcasmo e de revolta, para os opositores da magna questão.

Repelia tudo que procurava ofuscar a integridade da sua consciência e buscava, certamente, o processo de abertura política, em termos de república.  Tornou-se, assim, ele o intérprete da vontade doutrinária, em favor da luta, objetivo a que se propôs.  O condutor do ideário reformista viveu num ambiente de consciências fragmentadas e ambivalentes e a sua imagem-refrão de liberdade, não sugeria às correntes discursivas apenas palavras, mas, ação prática e resoluta.  Na ruptura de seus ambientes de origem e vínculos adquiridos, avultava-se-lhe o perfil do homem espiritualizado, em contraposição, em certos pontos, com as espessuras formais e estruturais da fisionomia espiritual do seu tempo, quase tornara contemplativa à revisão do problema.  Condenava, abertamente, os teóricos academizados que expressavam, apenas, uma realidade fragmentada, saturada de preconceito individualizantes, na utilização deliberada de sentimentos romântico, onde se observavam soluções utópicas que a premência das condições ambientais repelia.

A vida e a obra de Manoel da Silva, pode-se dizer, que giraram em torno de uma única preocupação: atingir a essência do homem; do homem coletivo, que lhe fizera dedicar parte da sua vida.  Durante certo período da campanha, ficou sozinho, no tempo e no espaço, embora, mais tarde, conquistasse a cidade, cuja influência provocou a ação, e dirigiu os acontecimentos.

A Campanha abolicionista lhe valeu o envelhecimento prematuro. Não aceitava a covardia de um recuo; seus pronunciamentos cada vez mais empunham restrições, fossem idéias contrárias, fatos ou indivíduos.  Ficava amargurado pelo frio silêncio  e uns e a resistência obstinada de outros à causa antiescravocata.  Lutou, tenazmente, junto à comunidade areiense no sentido de sua efetiva participação nas idéias liberatárias, embora sentisse que havia deserção de muitos na sua forma de luta, porque a diretriz emancipadora era voltada para o homem, frente às realidades imediatas.
Em Manoel da Silva existia uma atitude vital: a de assumir responsabilidade, que é a maior de todas as coragens.
O movimento abolicionista, em Areia, não foi um episódio isolado; a Paraíba, porquanto a capital do Estado, e Mamanguape, se  integraram, em conjunto,em prol da causa.  Em Manoel da Silva repousa o registro do pioneirismo, ante a desgraça servil que combateu, através das sinceras convicções e pronunciamentos, por vezes  satíricos.

Defendeu uma atitude pronta e atuante que bem caracteriza o pensador isotérico, areiense.  Ele busca o terra-à-terra do fato cotidiano, injetando-lhe a dose precisa para anular a resistência.

Muitos abolicionistas areienses pregavam a libertação dos escravos por simples sentimentalismo retórico, sem qualquer interpretação objetiva do problema, empregando uma linguagem demasiadamente, literária, rebuscada, por vezes, intumescida de imagens e metáforas, vestida de roupagem panfletária e de divagações. Tanto é assim que, os promotores da campanha ironizaram certos adeptos do movimento através de uma nota inserida no jornal “Areiense”.

 

GRANDE COMPRA DE ESCRAVOS”

“Nesta cidade compram escravos os seguintes cidadãos:

Simão Patrício da Costa paga a 10$000 os que aparecem matriculados legalmente
José Quirino Calaça Buryl compra um rapazinho com habilitações para caixeiro por preço que não exceda de 4$000;
Francisco Gomes Marinho tem precisão de um escravo de 20 anos mais ou menos e está disposto a chegar até 10#000;
Antonio Alves Cavalcante também dá 10$000 por um escravo qualquer deste município ou de Pilões, legalmente matriculado;
Firmino da Costa, compra para empregar na limpeza e asseio da cidade dois pretos robustos a 5$000
O Dr. Belino Souto precisa de um criado de servir e não paga por mais de 5$000;
Manoel da Silva e O Pires, compram os que existirem neste município no mês de dezembro do corrente ano. Não fazem questão de preço. Aproveitem;
Pedro Bruxaxá compra todos os que aparecerem quer estejam matriculados ou não. Paga bem e muito bem.”

Manoel da Silva demonstrou certo desinteresse pelas coisas materiais, onde o homem idealista, com conotações extremadas e configuradas na unidade interna, caracteriza o seu perfil. Toda a sua argúcia se converge para o processo de luta dos fatos surgidos, das referências, das motivações, para alinhar numa só fórmula o objetivo a ser atingido.  O condutor da libertação dos escravos foi um abolicionista radical, pois lutava contra a intriga dos senhores de engenho, dos esbulhadores, dos inconformados, não só em ação, bem como em atos públicos.

Durante a fase abolicionista, os obstáculos encontrados foram, gradativamente, removidos pela ação enérgica dos promotores do movimento, e a radicalização imposta à campanha por Manoel da Silva acabou desarmando o quadro da reação.  No período final, os beneficiários da campanha libertadora se engajaram em bloco maciço, coerentes comas posições assumidas ante a história, cujo coroamento se manifesta na balança das decisões, como marca indispensável à revisão.

Manoel da Silva fundara, em Areia, o Clube dos Libertos, cuja finalidade era agremiar os ex-escravos em torno do processo libertário.  Dele participaram, como líderes, os ex-escravos Militão, Benedito, Anselmo, Cofique e Serapião, os quais organizaram parte das festas relativas à Abolição, como danças, toadas, cocos e maracatus.
O condutor da Emancipadora Areiense sacudiu a antiga urbe em favor da redenção dos pretos escravos e as suas cercanias tomaram-se de entusiasmos em prol da causa, onde a marca da presença da entidade inundou os indiferentes e preparou o caráter para a luta, no cotidianismo e positivismo das ações.

Manoel da Silva emerge como líder inconteste do movimento e iniciou o trabalho libertário em Areia em 1873 e, dez anos depois, reorganizou a entidade emancipacionista a 16 de março de 1883.  Agindo nas senzalas, estimulando figas de escravos e, por sua vez, através de uma bem estruturada campanha antiescravista e de um processo de conscientização da comunidade areiense em prol do movimento.  Na bandeira libertária havia um compromisso histórico dos seus filhos, engajados no perfil e no auto gerenciamento da época que reclamava medidas efetivas e duradouras em favor dos escravocratas.

A Emancipadora Areiense, pelo reflexo e estratégias reordenadoras,do vivido utilizável, volta à tona com conotações  ajustadas e recompostas à realidade do momento e instrumentalizada em novos ângulos de conquista.  Institui-se um sistema de atividade agressiva para induzir o negro a fugir das senzalas, dando-lhe guarida nos engenhos dos simpatizantes da Abolição e complementando pelos slogans repetidos e estudados pelas sirenes  publicitárias do jornal Verdade, editado em Areia.

O líder da campanha abolicionista era, antes de tudo, um homem de fé, voltado para a pregação redentorista, cuja lembrança era evocada, assinalada por tantos atos e tantos gestos, traduz o espírito polêmico em função da coragem de antever perspectivas reformistas.

O Jornal Verdade, de 01 de dezembro de 1888, traz a notícia:

“SEÇÃO LIVRE AO PÚBLICO”

Declaro que deixarei de votar em qualquer eleição sempre que deixar de apresentar-se algum candidato republicano.

Como eleitor uma só vez votarei, em 1884, em candidato que se dizia abolicionista, porque sempre entendi que, vencida a causa da abolição seria erguida a da – REPÚBLICA.

Areia, 1 de dezembro de 1888.

O eleitor
Manoel da Silva

O condutor da articulação antiescravista era de comportamento decidido, leal e franco, e, ao mesmo tempo, de uma delicadeza que chegava ao ponto de doçura, embora arrebatado para aqueles que discordavam do seu posicionamento, frente à magna questão.  A revolução pela palavra e pela ação foi a diretriz empregada, e ele soube, como ninguém, dar à causa libertária, vida, força e paixão.  Abolicionista radical e republicano convicto, fez da sua cidade um reduto de luta emancipadora com acentuados reflexos às demais cidades circunvizinhas.  Manoel da Silva na sua campanha em prol dos escravos, ainda contou com outros fatores de natureza diversas, entre os quais o agravamento da situação pecuniária dos senhores de engenhos, em face da praga “gamose” que dizimou grande parte dos canaviais por mais de três anos; as posições oficiais em relação às leis anti-tráfico; o tráfego inter-província 1, além da epidemia de cólera, as manimussões e efeitos de pressões resultantes da campanha em favor da população escrava, cuja gama de atividades contribuiu, sobremaneira, para a redução gradativa dos contingentes escravizados.  Além dessas  contribuições, foram empregados o processo de alforria comprada pelo próprio escravo, por parentes dele ou por terceiros, bem como através de sociedades emancipadoras, e de livre iniciativa dos senhores escravocratas.

Manoel José da Silva, cuja vida fora um impressionante exemplo de tenacidade e altivez, cívica, nasceu na cidade de Areia/Pb., a 25 de setembro de 1837, e faleceu na mesma cidade, em 09 de outubro de 1890.

DOMINGOS DE AZEVEDO RIBEIRO
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